Algumas vezes, algumas vezes sobre a chuva na rua
Não há reflexo nas poças no escuro, não há abrigo em cidades com poucos prédios. Entrelaçados, cobrem parte do céu onde as pessoas vivem. Se vivem ou não é mera semântica, respiram é fato.
Insistem, galgam um pedaço do toldo, se espremem. Tudo se resolve. A chuva cai, as pessoas com guarida se encolhem enquanto os desabrigados de tudo acordam, correm.
A noite endurece; chuva e frio disputam espaço: uma hora é o tema de um, logo vem do outro. Dado um momento nem se sabe se frio e chuva são dois ou um, se algum dia vão se separar numa noite de inverno como essa.
Um chocolate quente ajuda, um pão sustenta. Tanta caridade, surpreende. A necessidade do povo se faz viva, respira ali do lado de todos, esperando sua vez de receber um pouco de comida. Tanto trabalho e doação que até invejam, mas invejam? Já ouvi falarem bondade e até assistencialismo. Diverge as opiniões tal qual as ações daqueles que as pregam.
Começos são necessários, tudo tem um rumo, um caminho. Assim defendo quem faz o que pode fazer como pode fazer. Desabrigar da rua o mendigo, retirar é a solução final, mas tudo tem seu começo, como disse.
E a chuva definitavemente para, depois de recomeçar duas vezes sua estranha dança com o frio. Deixa ele sozinho para enfrentar a noite. Na verdade acompanhado daqueles que já voltam a dormir.